MOÇAMBIQUE: POSSIBILIDADE, DOR E ESPERANÇA

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MOÇAMBIQUE: POSSIBILIDADE, DOR E ESPERANÇA

Moçambique é um País que se localiza ao sudeste do Continente Africano. É formado por 11 Províncias e dentre elas, Cabo Delgado, localizada no extremo nordeste do País cuja capital provincial é Pemba. Sua localização geográfica e seu solo trazem consigo imensa possibilidade de descoberta, liberdade e vida. Possui mar com gás, reservas de rubi e outras pedras preciosas, mas para além de tudo isso, há “espinhos” entre as “rosas” e, com as dores vividas por este povo podemos fazer um rosário com muitas Ave Marias. A maior parte da população vive em aleias com casas de material local (capim e taipa-barro), sem água, sem luz e 66,6% da mesma são analfabetos e em maior número as mulheres.

Fora isso, uma grande dor está atingir o coração do povo de Cabo Delgado, mais precisamente e, não “casualmente”, onde se localizam as jazidas de rubi, o petróleo e o gás, ao norte da diocese de Pemba, um grupo de insurgentes que atacam as aldeias. Colocam fogo nas casas e usando suas catanas = facão, assassinam as pessoas com a maior frieza e matam de modo especial homens de qualquer idade. Filhos da terra morrendo sem sentido, sem justificativa e nem o direito de saber o porquê. Essa situação deixa as pessoas com medo e acabam abandonando a aldeia, suas casas, sua machamba=lavoura a procura de lugar mais seguro. Houve diminuição dos ataques, mas quando o povo menos espera eles reaparecem. A polícia está mais atuante e isso tem dado certa segurança.

Como se não bastasse tudo isso, a natureza também resolve pesar sobre os filhos desta terra já tão sofrida. O ciclone Idai, em 14/3 provocou cerca de mil mortes no centro do País, destruindo as Cidade de Beira e Sofala. Nosso Bispo Dom Luiz Fernando Lisboa sempre muito sensível ao sofrimento do povo mobilizou as diversas entidades para ajuda humanitária e enquanto isso acontecia, nos é anunciado o ciclone Kenneth, desta vez atingindo Cabo Delgado, mais precisamente Palma e Pemba. Com rajadas de vento de 280 km/h e acúmulo de chuva de 100 a 150 mm de água em 24h, o ciclone Kennedt atingiu o território moçambicano a partir do dia 25/04 e com força extrema superior a do ciclone Idai.

No sábado 27, o Ciclone já foi rebaixado a uma depressão tropical, significa que perdeu intensidade e os ventos diminuíram, porém, já havia devastado os distritos de Mocimboa da Praia, Muidumbe, Palma, Ibo e Macomia, sendo este último arrasado, arvores caídas, casas desde as com menos estruturas até a dos missionários, a escola, a Igreja, foi teto caindo, paredes desabando, “um verdadeiro horror”, disse o Bispo Dom Luiz, ao voltar de sua visita aquela comunidade. Ibo, por ser uma ilha e não muito extensa também foi muito danificada, inclusive a Igreja histórica, uma das primeiras da Província. Os estragos apareceram por todos os lados: pontes caídas (Meluco e Mocimboa), arvores nas estradas, comunidades totalmente alagadas sem possibilidade de chegar nelas, rede elétrica danificada, mais de 3.300 casa totalmente destruídas e 500 mil pessoas atingidas diretas ou indiretamente.

O pior do ciclone não foi o vento, tão ou mais arrasador que o vento foi a chuva que continuou caindo pesadamente por vários dias e trazendo luto. Pemba ficou em baixo da água, muitos bairros atingidos, seis pessoas morreram soterradas quando parte da lixeira municipal desabou, uma Senhora foi morta pela queda de um coqueiro que a atingiu ao sair de sua casa. Mas a soma dos mortos é de 38. Isso graças ao trabalho das equipes das Igrejas locais, Missionários e Governo que agiram rapidamente na retirada da população das áreas de risco e como já tínhamos o exemplo da Beira, as pessoas não resistiram muito em sair. Uma das Igrejas de Pemba acolheu mais de 900 pessoas, outras Igrejas, escolas tudo lotado. Sem contar a dor de ver tudo o que haviam colhido nas machambas=lavoura, o milho, as abobora que já estavam em casa, o arroz que está a cachear, o sustento da família para o ano todo ser levado pela água, apodrecer, brotar… e, pensar que aqui nesta Província, a colheita está acabando, agora vem a seca e só no próximo ano. Podemos esperar o aumento da fome, da desnutrição, de mais doenças, que já começam a aparecer como a cólera que está se alastrando. É muita Dor!

Aos poucos o sol começa a brilhar, a água vai baixando, as roupas vão secando, alguns começam a voltar para suas casas que foram alagadas, mas não caíram, outros aguardam ainda nos alojamentos improvisados, pois não tem mais para onde voltar devido a perda total de sua casa. A Esperança agora esta na caridade solidária e ajuda que chega das diversas partes do planeta. Em Pemba está acontecendo um trabalho em parceria com diversas entidades no combate a epidemia de cólera, casa por casa, bairro a bairro levando frascos de Certeza para purificar a água que ficou toda contaminada (pois aqui, mesmo na capital, muitas famílias usam latrinas em precárias condições e com a enxurrada transbordou). A segunda etapa nesse combate será a vacinação que já está chegando. Faz-se também prevenção da malária devido a proliferação dos mosquitos, nesse processo todo há também o engajamento das Irmãs Filhas do Sagrado Coração de Jesus.

A reconstrução pode ser lenta, mas aos poucos vai chegando nos diversos Distritos: seja na restauração das casas, na doação de material escolar para repor os que foram levados pela água ou na aquisição de gêneros alimentícios, cuja colheita se perdeu.

Esperança de que juntamente com os bens materiais possamos reconstruir as forças, o ânimo, a energia, a dignidade e a fé dessas pessoas, alguns dos quais perderam a vida tentando salvar o pouco – tudo o que tinham. E para nós Filhas do Sagrado Coração de Jesus, o desfio é duplo, pois além do engajamento no trabalho dessa reconstrução aqui em Pemba, os dois distritos mais atingidos: Ibo e Macomia juntamente com Quissanga pertencem a Região Pastoral de Meluco, onde está sendo construída nossa residência e também já é nosso local de Missão. Contamos, porém, com a força do Sagrado Coração e a certeza que não faltarão mãos amigas e pessoas solidárias com essa luta.

Ir. Teresa Squiavenato

P/ Comunidade de Pemba/Meluco

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